segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Patrimônio? De quem?

Hoje quero começar falando um pouco sobre o que significa a preservação do nosso patrimônio histórico, artístico e cultural.
Patrimônio Histórico é todo bem móvel, imóvel ou natural, material e imaterial, que possua valor significativo para uma sociedade, podendo ser estético, artístico, documental, científico, social, espiritual ou ecológico. Esses bens devem ser considerados de interesse relevante para a permanência e a identidade da cultura de um povo. São a nossa herança do passado, com que vivemos hoje, e que passamos às futuras gerações como documento de nosso modo de vida e das relações com nosso tempo e nosso meio.
Do patrimônio cultural fazem parte bens imóveis tais como igrejas, casas, praças, colégios, conjuntos urbanos, e ainda locais dotados de expressivo valor para a história, a arqueologia, a paleontologia e a ciência em geral. Nos bens móveis incluem-se, por exemplo, pinturas, esculturas e artesanato. Nos bens imateriais considera-se a literatura, a música, o folclore, a linguagem e os costumes.
Tratar desse tema nos leva a pensar na Constituição Brasileira, que traz em todos os seus títulos, dispositivos sobre cultura e, utiliza as técnicas de cooperação entre Município, Estado e União, implicando na necessidade do diálogo entre essas instituições, na elaboração de projetos e leis para que políticas públicas de preservação e fomento dos bens culturais sejam efetivamente desenvolvidas.
O reconhecimento e a proteção no nosso patrimônio é fator muito importante para que possamos refletir sobre as nossas origens e os costumes do passado e poder assim traçar-mos nossas metas futuras que poderão ser baseadas na extinção ou permanência de nossas práticas para a garantia da liberdade artística valorizando seu papel social. Essa consciência deveria ser a base da atuação dos poderes públicos e da fiscalização e cobrança dos direitos constitucionais pela nossa sociedade.
A arte, a memória coletiva e a transmissão dos nossos saberes e costumes são os três campos de atuação do poder público em relação à cultura, e formam o trio básico dos nossos bens culturais e que o poder público deveria proteger, apoiar, promover e garantir.
Queremos políticas públicas para a cultura na nossa cidade que reconheçam, respeitem e incluam a pluralidade das nossas manifestações, que executem as suas ações assegurando a participação dos nossos artistas e da população interessada em todo o processo de elaboração e desenvolvimento das mesmas.

Em Santa Cruz do Capibaribe, nosso patrimônio cultural é um dos assuntos mais ausentes nas políticas públicas municipais. Os nossos prédios históricos são demolidos, reconstruídos, remodelados ao bel prazer dos seus proprietários e ou gestores, sem nenhuma fiscalização, sem nenhuma responsabilidade para com as nossas gerações futuras.
Para citar apenas um exemplo de descaso com nossos bens culturais podemos nos lamentar com o fechamento e a depredação do prédio do Colégio Cenecista, antigo Ginásio Santa Cruz, fundado em 1956, nossa primeira “grande escola”, onde tínhamos, uma gruta de pedra, hoje é mais um canto esquecido, sem suas imagens originais e rodeada de lixo; Uma capela mobiliada com tudo que tinha direito, seu altar, bancos, imagens, lustres, etc, que hoje estão só na lembrança dos seus freqüentadores ou em algum lugar, ostentados como obras de arte particulares; Um telhado inglês que foi substituído por telhas sem nenhum valor arquitetônico e que passou muito tempo jogado num canto até que alguém desse um fim; A casa dos professores de tanto valor histórico quanto o prédio principal, derrubada para a construção de um prédio novo, que hoje abriga a secretaria de educação do município; Uma biblioteca que foi por muito tempo orgulho de seus estudantes e que hoje, foi esfacelada, divididos os livros que interessavam para quem se interessasse e o resto, coleções antigas, edições históricas com títulos de autores como Guimarães Rosa, Machado de Assis, Gilberto Freyre, entre tantos outros, jogados fora como num “munturo” para quem quisesse levar, apenas pelo preconceito com “coisas velhas”...
Até quando a nossa população vai fechar os olhos para tais monstruosidades?
Até quando vamos ver nossa história e memória se desmanchando no ar como se de nada valessem?
Fica a reflexão e o desejo de que muito em breve possamos falar de nossa cidade em outros termos.

5 comentários:

Núbia disse...

Lamentável o que aconteceu com o prédio do Cenecista.
Um outro fato lamentável foi o ocorrido com a casa paroquial, que na minha opinião deveria ter sido transformada num museu para guardar a memória do saudoso Pe. Zuzinha, alí era para permanecer sua casinha original, com seus poucos pertences para que as novas gerações tivessem uma noção de quem foi aquele grande exemplo de caridade de Santa Cruz.
Mas o que fazer se o povo não tem cultura?

Jorge Dantas disse...

Graaaande Carlos,

Primeiro parabéns pelo blog. Agora sobre a temática da postagem: Sua preocupação é pertinente. O que quero questionar é se há interesse da maioria da população pela preservação do patrimônio histórico e artístico? Será que a maioria das pessoas quer isto? Claro que há descaso das autoridades mas, elas caminham de acordo com a maioria. Trabalho História em sala de aula e cada dia fico mais decepcionado pois vejo que a maioria não está nem aí para sua história e seu patrimônio e o pior é que olhando pelo lado pragmático até que não estão totalmente errados, ou seja, será que não é remar contra a corrente defender o contrário?

Um abraço,

Jorge Dantas.

Carlos MOSCA disse...

Opa, salve Jorge, que coisa boa contar com seu comentário, pois só assim podemos discutir os assuntos de nossa cidade. Primeiro, acho que a maioria da população de nossa cidade, na verdade, não é "de nossa cidade" e não têm o compromisso emocional com a história dela, pois sua história é de outro lugar (assunto abordado em outro artigo "É bairrismo?". Segundo, caminhar junto com a maioria, nem sempre está certo, principalmente quando se tem responsabilidades adquiridas a partir do momento em que se é colocado no poder. E essas responsabilidades são bem claras na nossa carta de responsabilidades maior que é a Constituição. A maioria da população pode até não ser ou estar esclarecida, mas os homens do poder têm a obrigação de saber de suas responsabilidades. Terceiro, a começar pelo ensino de história, não tenho conhecimento de nenhum livro didático ou material similar que ensine aos nossos alunos a história de sua cidade, uma das exigências da lei de diretrizes e bases do MEC e os professores ficam sem ter como fomentar esse interesse. Por último acho que é um direito, e muito mais, um dever de todos nós cidadãos, cobrar aquilo que sabemos estar errado, mesmo que nossos governantes não saibam. Meu maior medo é que eu chegue um dia em Santa Cruz e o nosso colégio tenha virado um supermercado, como virou o outro prédio da Av. 29 de dezembro, onde seria construído o nosso Teatro Municipal.
Valeu e continue sempre enriquecendo o nosso debate com suas idéias.
Salve Jorge!

Francineide disse...

Nossa Carlos é um prazer escrever um pequeno comentario aqui em seu blog.Olha sempre quando passo enfrente do cenecista vem a antiga lembrança do colegio de sempre tanto alluno lá. Tanta historia mas depois do teu comentario, também concordo e acho um descaso das autoridades e eu o que tenho feito quanto isso? No momento nada, mas sabe que despertou mais.
Francineide Lima

Carlos MOSCA disse...

Que coisa boa Fran! A idéia do blog é essa mesmo. Fazer as pessoas pararem um pouco para refletir sobre o que já passa despercebido de nossa população, tão ocupada com os assuntos pessoais, que não se dá conta da importância do coletivo, do futuro que se está construindo para nossa cidade. Não vamos deixar que o caos se instale aqui. Beijão e continue refletindo que vamos achar mais motivos para debatermos.