terça-feira, 18 de novembro de 2008

Cá, com meus botões...


O futuro de nossas cidades, proposto por seus dirigentes, quase sempre são decisões tomadas unilateralmente, já que a população não questiona e nem cobra posições e projetos; isso em parte se deve ao fato da grande maioria da população não ter subsídios intelectuais, históricos e culturais para formular esses questionamentos. Nossas escolas, há muito não formam cidadãos comprometidos com a coletividade, organizados e conscientes de seus deveres e direitos, cientes de sua identidade, de sua força e de sua voz.

Sabemos que a educação e a cultura são as grandes responsáveis pela voz dessa “...massa, que passa nos projetos do futuro...”. Sem essas duas ferramentas básicas, seremos sempre mudos, surdos e cegos. É por isso que as tomadas de decisões e as iniciativas acerca do desenvolvimento desses setores são sempre empurradas com a barriga, proteladas. Os espaços são sempre cerceados, os equipamentos sucateados, os agentes desestimulados, enfim, as coisas vão se arrastando a passos de tartaruga.

Um dos primeiros passos para a tomada de consciência de nossos direitos de cidadãos, da força que tem a identidade e a cultura de um povo é o conhecimento de nossa realidade, de nossas potencialidades e de nosso passado, nossa história e memória. A implementação desse conhecimento deveria ser uma iniciativa das escolas, como é recomendação do Ministério da Educação e Cultura. O ensino da história local é uma obrigação das Secretarias de Educação, Cultura e Esportes Municipais, porém essa não é a nossa realidade. Nossa memória está se esvaindo...

Preocupado com essa realidade é que o Instituto Pernambucano de História, Arte, Cultura e Cidadania – IPHACC, sempre direcionou suas ações para o registro de nossa memória e a preservação da nossa história. Assim inicia mais uma jornada em favor do fortalecimento da nossa identidade, mais um desafio aceito por Carlos Mosca e Ronaldo Nerys, dirigir mais uma obra audiovisual santacruzense. “Cá, com meus botões...” é o título do documentário de média-metragem que terá duração de 30 minutos, será captado em mídia digital e finalizado em formato DVD. Um registro audiovisual com depoimentos e arquivos/acervos fotográficos e videográficos públicos e privados.

O filme propõe uma viagem através da história que refletirá sobre as permanências e as mudanças sócio-culturais na cidade de Santa Cruz do Capibaribe, a partir do advento da Sulanca. Nossos costumes e nosso cotidiano antes e depois da Sulanca. A recepção de um passado recente, tendo por base a memória dos seus habitantes que, em sua dialética, protegem esse patrimônio material e imaterial santacruzense.

Acreditamos que o cinema não é só entretenimento, mas uma ferramenta sócio-cultural que se bem dirigida, tem o poder de mudar realidades individuais e coletivas, visto trazer na sua prática/teoria a observação do outro como matéria-prima da sua criação imagética. Acreditamos que se pode fomentar aos cidadãos, meios para que preservem, reflitam e planejem suas decisões, sobre seu patrimônio material e imaterial.

O município de Santa Cruz do Capibaribe tem história e memória e é através de trabalhos de registro e reflexão como o documentário que propomos, que se fortalece sua identidade e os laços afetivos que unem, não só os seus filhos naturais, mas também aqueles que encontraram aqui sua “terra-mãe adotiva” e seu lugar para viver.

O projeto está em fase de pré-produção, pesquisa e captação de recursos, entrará em produção durante os meses de dezembro de 2008 e março de 2009 e tem a previsão de estréia no mês de setembro de 2009 em Santa Cruz do Capibaribe e logo depois terá exibições em Recife/PE, Campina Grande/PB e João Pessoa/PB. Será inscrito em Festivais e Mostras no país e no exterior, bem como em programas de TVs educativas, a exemplo de sua produção anterior “Camelos do Ingá” que, lançado em agosto deste ano, já foi visto por grande público em Santa Cruz do Capibaribe, Campina Grande, João Pessoa e Rio de Janeiro, arrebatando prêmios e elogios do público e da crítica por onde passa.

Temos como objetivo a superação, sempre melhorar tecnicamente e levar o nome de nossa cidade com cada vez mais qualidade e cada vez mais longe. Pensando assim, esperamos contar com o apoio da população no tocante à liberação de arquivos/acervos pessoais para reprodução, como também contar com o apoio financeiro, como sempre, através de patrocínio das empresas que compactuam com esse nosso pensamento e que acreditam na nossa potencialidade.

Quaisquer informações ou esclarecimentos, favor contactar a produção através do email moscadesign@yahoo.com.br

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

DIA NACIONAL DA CULTURA


Em meu site de busca, se digito a palavra “cultura”, vou ter como resposta uma lista de sites. Se dermos um clic no primeiro deles, o link abre uma definição: “A palavra cultura abrange várias formas artísticas, mas define tudo aquilo que é produzido a partir da inteligência humana. Está presente desde os povos primitivos em seus costumes, sistemas, leis, religião, em suas artes, ciências, crenças, mitos, valores morais e tudo aquilo que compromete o sentir, o pensar e o agir das pessoas”.

Mais um clic e chegamos na Constituição “O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional, e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais. (Cap 3 seção 2 art 215).

Impressionante, entristecedor, desconcertante e acima de tudo vergonhoso, a forma como é tratada a cultura na nossa cidade, ou destratada, parafraseando Gil em sua procissão “...entra ano e sai ano e nada vem, meu sertão continua ao Deus dará, mas se existe Jesus no firmamento, cá na terra isso tem que se acabar.”

Grandes são os anseios da população que quer ver algo de concreto acontecendo nas políticas públicas para a cultura da nossa cidade. Como lá na definição, “várias formas artísticas” precisam ser estimuladas, é muito simples, falta gestão e vontade política.

Leis que disponibilizam verbas Federais e Estaduais para incentivo a projetos culturais, deveriam já ter se refletido nas ações Municipais, além disso, também precisamos de nosso próprio fundo de incentivo, precisamos de nossas leis. Precisamos de foco, na aplicação do dinheiro público naquilo que realmente pode enriquecer culturalmente o nosso povo.

Chega de bancar as carreiras meteóricas de bandas que foram criadas especificamente para enriquecimento financeiro, estimulando o “beber, cair e levantar” com um trabalho musical e cultural completamente pobre, difundindo valores e visões de mundo distorcidas. Temos que repensar o que termos como atração e referência para nossa população, repensar o formato de nossas “festas”, e pensar mais na nossa cultura.

Chega de dilapidar o nosso patrimônio, precisamos de investimentos na nossa memória, de um espaço onde as pessoas possam preservar seus bens culturais com dignidade e respeito.

Uma das ferramentas mais eficazes na mudança social, intelectual e na qualidade de vida das pessoas é o estímulo a projetos culturais, milhares de exemplos estão aí dando frutos e transformando nossos jovens, sendo mostrados na mídia, porém não vemos essas iniciativas na nossa cidade. Continuamos lendo, vendo e ouvindo as reclamações acerca da violência, mas não vemos as ações além da repressão, o que gera mais violência ainda.

Assistimos já a um longo período de estagnação, de falta de interesse, de falta de atenção, de debate, de falta de ação mesmo, é como se a cultura fosse um assunto completamente fora da pauta para o poder público. É como se não existisse nenhuma responsabilidade no passo atrás que se dá ano após ano e nessa lacuna, essa página negra escrita na história cultural de nossa cidade.

Isso precisa mudar antes que cause mais prejuízo à nossa terra!

Hoje, no dia nacional da cultura, se Ângela Rorô fosse santacruzense ela cantaria assim: “Perdoai-os Pai, eles só sabem o que fazem...”